sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Recado


- N.º 1, n.º 2…
A professora começou a fazer a chamada e os alunos iam levantando o braço para assinalar a sua presença.
- … n.º 3, n.º 4…
Na última fila da sala, António deu uma cotovelada ao colega do lado: “Passa este recado para a Carolina!” O colega acenou brevemente com a cabeça e pôs o recado a avançar em direção à primeira fila. António ficou a ver o pequeno papel dobrado a passar de mão em mão.
- …n.º 7, n.º 8…
Tinha passado um bom bocado do serão, no dia anterior, a compor as frases que agora avançavam naquele papel dobrado. Misturava a lua com o brilho das estrelas e a cor do mar com a frase fundamental: “Gosto de ti!” O resultado final tão depressa lhe parecia inspirado, romântico e poético, como lhe soava a idiota e fora de moda. Agora, já não havia nada a fazer. O papel avançava inexoravelmente para a sua destinatária.
- …n.º 11, n.º 12…
Lá à frente, Carolina folheava distraidamente o livro. E então António viu o papel com o seu recado amoroso ser entregue à colega que se sentava ao lado, Catarina. Sentiu tonturas, o chão pareceu engoli-lo. Poucas vezes tinha falado com ela, o que é que a rapariga ía pensar dele?
- …n.º 17, n.º 18…
Viu-a desdobrar o papel e ler o recado. Teve tempo para ler pelo menos três vezes, até levantar os olhos e voltar a cabeça para trás. Sorria!
- …n.º 21, n.º22…
Sem saber o que fazer, António sorriu também. A professora tinha terminado a chamada, e a aula começou, mas António não conseguia concentrar-se. Perto do final da aula, sentiu uma cotovelada do colega e caiu-lhe um papelito dobrado no colo. Leu: “Eu também gosto de ti! No intervalo grande, na pastelaria da D. Fernanda.”
Três anos depois, continuavam juntos. Nunca tinha confessado à Catarina o engano e, no entanto… Enquanto passeavam de mãos dados, António pensava naquele papelito dobrado, que não tinha sido entregue à destinatária, mas que, sem sombra de dúvida, tinha chegado ao destino certo.



(Este texto integra-se no desafio de maio da Fábrica de Letras
que tem o  tema Destino)

25 comentários:

  1. Simples, bem escrito e com final feliz.

    Gostei.

    Bom final de semana.

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  2. Que lindo teu texto. Bom de ler até o fim!!bela participação! beijos,chica

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  3. Não há um ditado que diz que "Deus escreve direito por linhas tortas"? Aqui seria mais "colega surdo providencia namoro muito pouco provável"... :)))

    Beijocas!

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    1. É o que se pode chamar uma surdez providencial!:)
      Bjs e bom fim de semana.

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  4. São, Chica
    Obrigada e bom fim de semana.
    Bjs

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  5. Bela história de amor!
    O destino tem destas coisas! :-))

    Abraço

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  6. Amiga,

    que delícia de texto e que intensidade narrativa.
    Adorei e fiquei enfeitiçada.
    Belo contributo.

    :)

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  7. Teresa

    Adorei o conto. Na verdade, o recado chegou ao seu destino. :)

    Bj

    Olinda

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  8. Ai o Amor! Ai o Amor no Liceu! Que saudades....

    Beijinhos. Está lindo!

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  9. ADOREI! O que prova que o destino nem sempre tem rumo traçado :)
    Acho que também recebi um papelinho assim nos meus tempos de menina :))

    beijinhos e bom fim de semana

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  10. Está tudo explicado. A minha filha tem 22 anos, chama-se Ana Carolina e não namora...
    :)

    Gostei muito deste conto.

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    1. O António manda pedir desculpas à sua filha! :)

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  11. Gostei muito!
    Coisas do Destino...:))

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  12. Sensacional, Teresa! Parabéns! Adorei esse conto! Merece um prêmio, viu? É assim mesmo que a Vida realiza os seus desejos. Um beijão!

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  13. Lindo, Teresa! Como as linhas cruzadas podem levar à Felicidade, ou como o amor se escreve direito por linhas tortas.

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  14. Obrigada amigos! Enchem-me de mimos!
    Bjs

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  15. OI teresa
    Foste tão feliz nesse conto! também tive uns papelinhos encontrados embaixo da carteira pelo turno da manhã rsr só que o destino nos jogou pra longe ... rs mas até hoje nos pegamos a rir disso.!
    É lindo esses amores adolescentes!
    Obrigada , foi gostoso ler,
    um abraço

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    1. Quem não teve, não é Lis? Tão bom recordar esses tempos!
      Beijinhos.

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  16. A inocência dos primeiros namoros. Agora era enviar um SMS e não havia possibilidade de engano... Beijoca!

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    1. Ainda bem que não havia SMS, não é? E, sabes que hoje os miúdos continuam a mandar papelinhos? Apanho cada um!
      Bjs

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  17. Que gira história. As voltas do destino ...:)No meu caso, eu era sempre intermediária desses papelinhos, mas nunca me lembrei de interromper a corrente. Quem sabe? :)) beijinhos

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  18. A vida também de faz de enganos.O destino de muitas pessoas repleto deles!

    Abrç

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  19. Que maravilha, Teresa! Que linda história! Estamos necessitados de histórias que parecem anunciar uma desgraça mas que terminam com uma feliz surpresa, para variar! Quase que dá para acreditar que, se fecharmos os olhos e largarmos o volante, haveremos de ir ter ao sítio certo... Quase! =)

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  20. As Lembranças, histórias fazem partes dos nossos destinos.
    Parabéns!!!
    Uma participação bem legal...Gostei..
    Nossos destinos foram traçados..Por isso, a Interação de Amigos esta´por aqui. Partticipando da coletiva fábrica das letras.
    http://sandrarandrade7.blogspot.com.br/
    Um grande abraço para ti...
    Sandra

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