sábado, 26 de novembro de 2016

Ainda se caçam Pokemons?




Escrevi num post anterior que, quando passei por França, no mês de agosto, só se falava de dois assuntos, nos telejornais: o problema do burkini e a polémica da caça aos Pokemons. Não que alguém quisesse impedir esse singular desporto da era digital. Falei com vários jovens sobre o assunto e todos me declaravam enfaticamente que era muito saudável caçar Pokemons porque os fazia caminhar quilómetros e interagir com outros caçadores. Aceito o argumento, embora me pareça que era a mesma coisa se corressem na marginal ou andassem de bicicleta...
Nas noites quentes de verão, encontravam-se às centenas por Lisboa, desde Belém até ao Parque das Nações. Os caçadores de Pokemons eram facilmente reconhecíveis. Caminhavam geralmente em grupos, todos mais interessados nos seus telemóveis do que na conversa com o vizinho do lado. De vez em quando, agrupavam-se em certos locais: parece que aí havia mais pokemons à solta, ou ginásios para os ditos fazerem qualquer coisa que nunca percebi bem... Enfim, pareciam inofensivos.
Em França, a polémica centrava-se na caça aos Pokemons em sítios ou monumentos históricos. Alguns presidentes de Câmara proibiram mesmo o jogo nesses locais. E a polémica instalou-se, com uns contra a proibição, outros a favor. Apesar de eu achar a caça aos Pokemons uma brincadeira um bocado tola mas inofensiva, também não me agradava essa mistura, essa diluição de fronteiras. Brincar aos caçadores no Parque das Nações é uma coisa, procurar Pokemons no Mosteiro dos Jerónimos ou na Torre de Belém é outra totalmente diferente. São locais que se devem visitar pelo que significam, em termos estéticos ou históricos, e não para descobrir algum Pokemon escondido atrás de uma coluna ou debaixo de um canhão.
Enfim, a polémica não chegou a ser mais violenta porque, aparentemente, a moda passou. Não me lembro de deparar com caçadores de Pokemons nos últimos meses. Entretanto, vieram os festivais de verão e as praxes universitárias, os jogos de futebol e a Web Summit, e a malta distraiu-se com outras coisas. Tal como todas as modas nesta época do superficial e do efémero, esta também passou. E a malta que quer estar em forma, voltou a correr ou a andar de bicicleta...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A minha liberdade condicional


Eu não sabia, mas cometi um crime: estou doente. Desenvolvi uma tendinite no ombro direito que me tem dado muito que fazer! Depois de meses a tentar conciliar as aulas com os tratamentos, a correr para não deixar nada para trás, a dormir mal com as dores e com a ansiedade, a minha médica disse: Basta! E pôs-me de baixa. Veredito: braço em repouso e fisioterapia, de preferência, diária.
A baixa médica transformou-me logo num suspeito, aos olhos do Estado. A nossa elite legisladora, que sabe bem como contorna a lei quando lhe dá jeito, julga-nos a todos pelo seu próprio exemplo. Daí a suspeição! Eu podia utilizar a pequena fortuna com que o Estado me remunera mensalmente (especialmente em situação de baixa) para, por exemplo, ir apanhar sol para a República Dominicana, ou, pelo menos, para deambular pelos centros comerciais, a comprar as prendas de Natal... Sendo suspeita de defraudar o meu empregador, sou sujeita a uma medida de coacção: termo de identificação e residência. Medida leve, um degrau abaixo da prisão preventiva! Tenho de me manter em casa durante dois períodos no dia, em três dias da semana, para a minha entidade empregadora mandar fazer a verificação domiciliária da minha baixa. Afinal, quase não tenho tempo para fazer a fisioterapia! As caminhadas recomendadas pela fisioterapeuta são para esquecer... e já nem falo das compras domésticas, quem quiser que as faça... Será que posso pedir para me porem, em alternativa, uma pulseira eletrónica no tornozelo? Dava-me mais liberdade e também impedia a minha fuga para a República Dominicana!
A situação de baixa médica torna-nos suspeitos, aos olhos do Estado. Eu já olho para o futuro, ansiando pelo momento em que serei premiada com a liberdade condicional... Para ir trabalhar, claro!

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A viagem de balão que eu (não) fiz...



Terminou neste fim de semana o 20.º Festival de Balões de Ar Quente, que pôs, mais uma vez, dezenas de balões a colorir os céus do Alentejo. É sempre um espetáculo magnífico e eu lá rumei até terras alentejanas, para voar ou, simplesmente, apreciar as vistas...
Eu não me sentia com muita coragem para essas esperas, mas os anúncios falavam também de vouchers, com voos garantidos. Como tenho amigos no Alentejo, pedi para me comprarem os vouchers. E paguei-os de boa vontade, já que eram vendidos pelos bombeiros e o seu valor revertia para as suas corporações.
E, no sábado, lá fomos para o Alentejo! Às 14h e 30, a fila já começava a formar-se. Uma rapariguita, com ar desembaraçado mas com claras deficiências no que toca a organização de eventos, gritava informações e orientações para as pessoas, que se agrupavam pacificamente, numa espera tranquila. Uma fila para os possuidores de vouchers, outra fila para os que não possuiam vouchers e apostavam numa viagem gratuita. De repente, as coisas começaram a tornar-se estranhas. Os organizadores resolveram perguntar aos da fila gratuita quem queria comprar uma T-Shirt com voucher. Várias pessoas avançaram, em corrida. E as coisas desorganizaram-se. A rapariguita esganiçada decidiu colocar esses recém chegados no início da fila. E eu, que sou desconfiada, comecei a não gostar do ambiente...
Chegou a hora de entrar nos balões. O tempo estava instável, alguns balonistas estavam com medo de levantar e parecia haver menos lugares disponíveis. O mais lógico seria dividir logo as pessoas pelos baões disponíveis, fazendo grupos pela ordem da fila. Mas foi então que a tal rapariguinha, com o aparente aval da organização, mostrou toda a sua falta de competência. Os gritos eram agora para todos os que esperavam: "Três pessoas para aqui!" Avançavam três. "Agora seis pessoas levezinhas!" Corria lá de trás um grupo de raparigas, algumas bem avantajadas... Perdeu-se a ordem, desapareceu o critério. E, de repente, não havia mais lugares nos balões! E as pessoas que se tinham mostrado mais educadas e respeitosas da organização da fila de espera, ficaram em terra, com um voucher de "voo garantido" na mão!
Algumas explicações da rapariguita, sem um pedido de desculpas! Uma total falta de respeito pelas pessoas, tratadas como um monte de bonecos! Uma organização deplorável, que transformou uma festa numa inesperada e inexplicável frustração para várias pessoas. Portugal merece melhor!
E foi assim que eu fiquei, na tarde de sábado: a ver navios, que é como quem diz, a ver balões!

domingo, 6 de novembro de 2016

O caos em Lisboa




Este início do ano letivo, que corresponde também ao final das férias para muitos portugueses, tem sido especialmente penoso para os lisboetas. As obras em várias zonas da cidade, assim como a degradação do serviço público de transportes, tem trazido o desespero e uma fúria resignada a todos os que têm de se deslocar para trabalhar ou fazer qualquer outra coisa na capital.
Já se tem ouvido falar dos problemas do metropolitano de Lisboa. Não os entendo bem. Nos últimos anos, havia greves dos trabalhadores do metro semana sim, semana não, alegadamente em defesa de um melhor serviço para os passageiros; e, no entanto, tudo parecia funcionar bastante bem. Agora, a situação é caótica mas não se ouvem protestos. Será que o serviço está melhor? Parece-me bem que não! Não me lembro de chegar à linha azul e ver que o próximo comboio só parte dali a vinte minutos. Esperas de quinze, dezassete minutos tornaram-se vulgares. O resultado é evidente: estações cheias e comboios apinhados.
Fugir do metro para andar de autocarro pode não ser uma boa ideia. Cá por cima, o trânsito arrasta-se penosamente, por entre buracos e pó. Há ruas cortadas e passagens limitadas a um automóvel. Da Graça ao Cais do Sodré, de Entrecampos ao Arco do Cego ou ao Campo das Cebolas, o panorama é o mesmo. As obras esventraram Lisboa e a paciência dos lisboetas. Um trajeto que se fazia em vinte minutos demora agora uma hora ou mais. Os autocarros andam constantemente atrasados e invariavelmente cheios.
O outono está aí. Talvez a Câmara Municipal de Lisboa tenha sorte e não seja muito chuvoso! Juntar as habituais inundações a estes estaleiros a céu aberto, por onde se tentam esgueirar automóveis e transeuntes, parece elevar a um grau apocalíptico um cenário já caótico.
Seria necessário fazer todas estas obras ao mesmo tempo? Estaríamos todos assim tão desesperados por mais uma ciclovia ou mais um metro de passeio? No próximo ano, depois de se fazerem todas as devidas inaugurações, quando forem depositar o voto nas urnas das eleições autárquicas, talvez os lisboetas já se tenham esquecido deste ano de pesadelo! Ou talvez não! 

domingo, 16 de outubro de 2016

Uma caldeirada na Trafaria



Um destes dias, convidaram-me para ir até à Trafaria, comer uma caldeirada. É um daqueles convites que são irrecusáveis... Aproveitar os últimos dias de sol... Cruzar o Tejo num ferryboat dos antigos, um cacilheiro a sério, amarelo, onde ainda podemos apoiar-nos na amurada, a sentir o vento e as ondas do rio... Saborear um peixinho fresco, cozinhado das formas mais tradicionais... Que bom programa!
Há muitos anos que não ía à Trafaria e estava com curiosidade em ver como estava aquela pequena vila, fronteira a Lisboa. Parecia-me talhada para ser um ponto de referência turística: a vinte minutos da capital, com saída da estação fluvial de Belém e cruzando o Tejo num passeio muitíssimo agradável! Os seus restaurantes são conhecidos, os pratos são recomendados. Esperava ver uma vila mimosa, cheia de esplanadas, com restaurantes de decoração marítima e tradicional, com jardins e passeios cuidados até ao porto fluvial.
Infelizmente, enganei-me. Encontrei uma aldeia de subúrbio, com um ar abandonado e desengraçado. Em algumas paredes, a decoração era feita com grafitis e palavras de ordem do PCP e do Bloco de Esquerda. Não  havia flores nem passeios cuidados. Detetava-se um ambiente geral de falta de brio e de ambição. Esplanadas, poucas: meia dúzia de mesas, desalinhadas. Os restaurantes estavam cheios, alguns com fila de espera à porta. A decoração dos interiores, em geral, era pobre e sem graça. Os empregados, poucos, vestidos de forma descuidada, sem qualquer noção de serviço de mesa. Os preços não são tão baixos que não suportem, pelo menos, uma toalha de mesa aos quadrados...
Salvou-se a caldeirada, que estava magnífica!

sábado, 10 de setembro de 2016

Postal de Lisboa XXV - Os azulejos de Lisboa




Hoje, passámos a manhã a passear por Lisboa, de nariz no ar, a observar os azulejos das fachadas dos prédios. Todos deviamos fazer isto mais vezes, tirar tempo para olhar à nossa volta, com vagar. Muitas vezes, é aquilo que está ao pé de nós, que vemos todos os dias, que mais nos escapa! É o caso dos azulejos.
Todos nós, em Lisboa, nascemos e crescemos rodeados de azulejos. Eles estão nas fachadas e nos interiores. Nos cafés e nas igrejas. Nas casas de banho e nas escadarias nobres. Atapetam prédios inteiros ou são apenas frisos, à volta das janelas ou no topo dos edifícios. São multicolores ou monocromáticos. Têm padrões geométricos ou motivos florais. São tantos e tão diversificados que já não lhes damos importância nenhuma.
A arte do azulejo é uma das nossas heranças mouras. A partir do século XVI, XVII, atinge aqui em Portugal, no entanto, um esplendor quase único. Um século depois, salta do interior para o exterior e cobre fachadas inteiras. E, quando Lisboa cresce e se expande, no século XIX, esta cobertura azulejar cobre as ruas da capital.
Naquela época, havia várias fábricas de azulejos, tanto na zona de Lisboa como do Porto. Era uma cobertura relativamente barata, duradoura e termicamente adequada. A segunda metade do século XX, no entanto, assistiu a um abandono do centro da cidade e, com ele, a um desprezo por esta nossa característica decorativa.
Nós não prestámos atenção, mas os turistas sim. E começou a venda dos nossos azulejos para o estrangeiro, a altos preços, muitas vezes ilegalmente retirados dos locais a que pertenciam. Calcula-se que sairam do país milhares de azulejos por ano. Hoje, voltou a valorizar-se o azulejo como parte do nosso património, e também do património universal. Há projetos de salvaguarda e valorização, como o Projeto SOS Azulejo, que vale a pena conhecer.
Hoje, andámos a passear por Lisboa, observando essa paisagem cultural tão característica. Descobrimos pormenores em que nunca tinhamos reparado e descobrimos que alguns prédios cobertos de azulejos (geralmente dos finais do século XIX) tinham sido demolidos recentemente, desaparecendo com eles a cobertura das suas fachadas, os frisos florais, os painéis decorativos. Quem sabe onde estarão? 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Igualdade, em pequenos lances

Arranjei um problema num ombro, complicado, doloroso. As causas são um tanto obscuras: o médico fala de situações de tensão continuada e maus posicionamentos relacionados com a atividade profissional. A consequência foi só uma: tratamentos de fisioterapia até... sabe-se lá quando!
Felizmente, a minha fisioterapeuta é muito simpática. É jovem, risonha, muito profissional. E gosta de conversar enquanto trabalha. Diz que ajuda a descontrair os pacientes... provavelmente tem razão. 
Foi assim, nessas conversas, que eu fiquei a saber que ela tem um hobby pouco vulgar: é árbitro de futebol. Não deve ser tarefa fácil, num meio em que ainda impera a testoesterona. Provavelmente, teriam de mudar o tipo de insultos que os adeptos dirigem aos árbitros. E, sinceramente, não sei se impõem mais ou menos respeito em campo.
Segundo parece, as árbitros (ou árbitras? tenho de lhe perguntar!) ainda são poucas. Arbitram principalmente jogos do Campeonato Feminino de Futebol, embora possam arbitrar também jogos masculinos. E já o vão fazendo, nos campeonatos de juvenis e juniores. E os seniores, os jogos dos grandes? Lá chegarão! 
Daqui a dez ou quinze anos, provavelmente, este meu espanto já não terá fundamento e será normal ver uma mulher nas equipas de arbitragem. Pouco  a pouco, passo a passo, qualquer mulher terá tanto direito a detestar futebol como a praticá-lo ou arbitrá-lo. E é essa igualdade de oportunidades que assim, em pequenos lances, se constrói.